QUINCAS BORBA - CAPÍTULO 81 AO 100
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CAPÍTULO LXXXI ANTES DE CUIDAR da noiva, cuidou do casamento. Naquele dia e nos outros, compôs de cabeça as pompas matrimoniais, os coches,-se ainda os houvesse antigos e ricos, quais ele via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como ele gostava de ir esperar o Imperador nos dias de grande gala, à porta do paço da cidade, para ver chegar o préstito imperial, especialmente o coche de Sua Majestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos. Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe às bodas, se toda a sociedade não estivesse já nivelada pelo vulgar coupé. Mas enfim, iria de coupé; imaginava-o forrado magnificamente, de quê? De uma fazenda que não fosse comum, que ele mesmo não dis-tinguia, por ora; mas que daria ao veículo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas um ouro nunca visto. Con-vidados de primeira ordem, generais, diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas sumidades do comércio, e as damas, as grandes dunas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, ele no alto da escada de um palácio, com o olhar perdido por aquele tapete abaixo, - elas atravessando o saguão, subindo os degraus com os seus sapatinhos de cotim, breves e leves,-a princípio, poucas,-depois mais, e ainda mais. Carruagens após carruagens. . . Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e uma singular dama. . . "Caro amigo, aqui estamos", dir-lhe-ia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa"Se-nhor Rubião, a festa é esplêndida. .." De repente, o internúncio. . . Sim, esquecera-se que o internúncio devia casá-los; lá estaria ele com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em conversação com o ministro da Rússia. Os lustres de cristal e ouro alumiando os mais belos colos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orquestra dando sinal para uma valsa. Então os braços negros, em angulo, iam buscar os braços nus, enluvados até o cotovelo, e os pares saíam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia esplêndida. Cristais da Boêmia, louça da Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciais do Rubião na gola.
CAPÍTULO LXXXII ESSES SONHOS iam e vinham. Que misterioso Próspero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime? "Vai, Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este jovem casal alguns feitiços da minha feitiçaria ." As palavras seriam as mesmas da comé-dia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquela era a própria cabeça do nosso amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. Mais rica era. Não esqueçamos que o Próspero de Shakespeare era um duque de Milão; e eis aí, talvez, por que se meteu na ilha do nosso amigo. Em verdade, as noivas que apareciam ao lado do Rubião, naqueles sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e fáceis da nossa nobiliarquia. Eis aqui a explicaçãopoucas semanas antes, Rubião apanhou um almanaque de Laemmert, e en-trando a folheá-lo, deu com o capítulo dos titulares. Se ele sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanaque, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por ali abaixo, desde os marqueses até os barões, voltava atrás, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de cor. As vezes, pegava da pena e de uma olha de papel, escolhia um título moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o próprio dono e assinasse alguma cousa Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Ia assim, até o fim da lauda, variando a letra, ora grossa, ora miúda, caída para trás, em pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nela, e comparava as assinaturas; deixava o papel e perdia-se no ar. Daí a jerarquia das noivas. O pior é que todas traziam a cara de Sofia;-podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma vizinha, ou com a moça que ele cumprimentara, à tarde na rua, podiam começar muito magras ou gordas;-mas não tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bela Sofia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sair da casa dele tendo-lhe ouvido a ela uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de ventura, posto que ele repelisse logo a idéia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as maneiras, tornava ele definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez, era o próprio Palha que o acordava daqueles sonhos conjugais. -Tem onde ir hoje à noite? -Não. -Pegue lá uma entrada para o Teatro Lírico, camarote n° 8, primeira ordem à esquerda. Rubião chegava mais cedo, ia esperar por eles, e dava o braço a Sofia. Se ela estava de bom humor, a noite era das melhores mundo. Se não, era um martírio, para repetir as próprias palavras dele, ao cão, um dia -Vim ontem de um martírio, meu pobre amigo. -Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba. -Sim, meu pobre amigo, acudiu ele pegando-lhe nas patas dianteiras e colocando-as sobre os joelhos. Você tem razão; precisa uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande amigo, eu também fui amigo dele, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,- ao menos, o de honra, aos noivos;-e seria por copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de propósito... Grande Quincas Borba! E o espírito de Rubião pairava sobre o abismo.
CAPÍTULO LXXXIII UM DIA, como houvesse saído mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a primeira hora, caminhou para o armazém. Desde uma semana que não ia à Praia do Flamengo, por haver Sofia entrado em um dos seus períodos de sequidão. Achou a Palha de luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notícia chegara na antevéspera, à tarde. -A mãe daquela mocinha? -Justo. Palha falou da defunta com muitos encarecimentos; depois contou a dor de Maria Benedita; estava que metia pena. Perguntou-lhe por que é que não ia ao Flamengo, logo à noite, para ajudá-los a distraí-la? Rubião prometeu ir. -Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor ali está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, ressarciu o tempo perdido com rapidez extraordinária. Sofia é a mestra. E dona de casa? Isso, meu amigo, não sei se em tal idade se achará pessoa tão completa. Já agora fica conosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem também o padrinho, em S. João d'EI-Rei. A defunta fazialhe muitos elogios; não creio que ele a mande buscar, mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não há de ser pelo que o padrinho lhe quiser deixar em testamento que nos desfaremos dela. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do Rubião. Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escritório, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazém. Perguntou que traziam. -São uns morins ingleses. -Morins ingleses, repetiu Rubião, com indiferença. -A propósito, sabe que a Casa Morais e Cunha paga a todos os credores, integralmente? Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se eles eram credores dela; ouviu a notícia respondeu que estimava muito, e dispôs-se a ir embora. Mas o sócio reteve-o ainda alguns instantes. Esta-va alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguém. Voltou a tratar de Maria Benedita. Tinha intenção de casá-la bem; nem ela era moça de dar lérias a pelintras, nem se deixava ir por fantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa séria. -Sim, senhor, ia dizendo Rubião. -Olhe, murmurou de repente o Sócio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que você é que casa com ela. -Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para atenuar o efeito da recusa. Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar... -Ninguém lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sofia nunca lhe contou este meu palpite? -Nunca. -É esquisito, disse-me que lhe falara uma vez, ou duas, não me lembro bem. -Pode ser, sou muito distraído. Que queriam casar-me com a moça? -Não, que eu tinha um palpite. Mas, deixemos isto. Demos tempo ao tempo. -Adeus. -Adeus, vá cedo.
CAPÍTULO LXXXIV COM QUE ENTÃO, Sofia queria casá-lo? saiu pensando o Rubiãoera naturalmente o processo mais expedito para descartar-se dele. Casá-lo, fazê-lo seu primo. Rubião palmilhou muita rua, antes que chegasse a esta outra hipótese-talvez Sofia não se houvesse esquecido, mas mentisse de propósito ao marido para não dar andamento ao projeto. Neste caso o sentimento era outro. Esta explicação pareceu-lhe lógicaa alma voltou à serenidade anterior.
CAPÍTULO LXXXV MAS NÃO HÁ SERENIDADE moral que corte uma polegada sequer às abas do tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer mais curto. Ao contrário, a ânsia de ir ao Flamengo, à noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir à Rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réu no júri. Não havia divertimento algum público, festa nem sermão. Nada. Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas, à toa, lendo as tabuletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropelo de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, por quê? Não achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrair, e que o distraía deveras mas havia aqui horas de um tédio mortal. Felizmente, há um deus para os enojados. Acudiu à memória de Rubião que o Freitas,-aquele Freitas tão alegre,- estava gravemente enfermo; Rubião chamou um tílburi e foi visitá-lo à Praia Formosa, onde morava. Gastou ali perto de duas horas, conversando com o doente; este adormeceu, ele despediu-se da mãe,-um caco de velha,-e à porta antes de sair -A senhora há de ter tido seus apertos de dinheiro, disse Rubião e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhosNão se envergonhe; necessidade aflige, mas não envergonha. Eu o que queria era que a senhora aceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudira despesa, pagará um dia, se puder... Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil-réis, fez um bolo de todas elas, e deixou-lho na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; só ao rodar do tílburi, é que correu à janela, mas já não podia ver o benfeitor.
CAPÍTULO LXXXVI TUDO AQUILO SAIU tão espontaneamente ao Rubião, que ele só teve tempo de refletir, depois que o tílburi começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Rubião sentiu toda a vantagem de não estar inválido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vê-la. -Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguês que tinha. -Acho bonito. -Nunca veio aqui? -Creio que vim, há muitos anos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de Minas. . . Pare, moço. O cocheiro fez parar o cavaloRubião desceu, e disse-lhe que fosse andando devagar. Em verdade, era curioso. Aquelas grandes braçadas de mato, bro-tando do lodo, e postas ali ao pé da cara do Rubião, davam-lhe vontade de ir ter com elas. Tão perto da rua! Rubião nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim sim, - dizia ele consigo,-fosse o mar todo uma cousa daquele feitio, alastrado de terras e verduras, e valia a pena navegar. Para lá daquilo ficava a Praia dos Lázaros e a de S. Cristóvão. Uma pernada apenas. -Praia Formosa, murmurou ele; bem posto nome. Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Saco do Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. Todos eles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pequerrucho de três anos; agarrava-se-lhe à perna e ia-a estendendo até nivelá-la com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino. Rubião deteve-se alguns minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto de atenção, redobrou o esforço no brincoperdeu a naturalidade. Os outros meninos mais idosos detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do cemitério dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas, o cais encardido e a vida lá dentro E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nele transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!
CAPÍTULO LXXXVII RUBIÃO chegou ao fim da Rua da Saúde. Ia à toa com os olhos espraiados e desatentos. Rente com ele, passou uma mulher, não bonita, nem singela sem elegância, antes pobre que remediada, mas fresca de feições, contaria vinte e cinco anos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião. -Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço. Rubião inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo. -Muito obrigada, desculpe, disse ela sorrindo- e cumprimentou-o. Rubião tirou o chapéu, sorriu também. A visão da família apoderou-se dele outra vez.-"Case-se e diga que eu o engano!" Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em várias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, música séria, regular e clássica. Chegou a pensar na filha do major e que apenas sabia umas velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra do pecado, tangida pelos dedos de Sofia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saúde, modos tão bonitos, criancinha pela mão...
CAPÍTULO LXXXVIII A VISTA DO TÍLBURI fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa. -Pobre Freitas! suspirou. Logo depois, pensou também no dinheiro que deixara à mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a idéia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns segundos no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo e para esquecê-la de todo, exclamou ainda em voz alta -Boa velha! pobre velha!
CAPÍTULO LXXXIX COMO A IDÉIA tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tílburi, entrou e sentou-se, falando ao cocheiro, para fugir a si mesmo. -Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outro; bairros. Gosto disto. Hei de vir mais vezes. O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mau sentido, mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar d princípio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação. -Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse ele. Há de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro. -Por quê? aventurou Rubião. O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,-não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o freguês ia demonstrando, ele ia fi-cando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão. -Já sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira por que olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta. . . Rubião, lisonjeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo: -Que moça? -Que lhe dizia eu? redargüiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não há muitos dias trouxe um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, -já se sabe, negócio de rabo de saia. -Mas eu... interrompeu Rubião. Mal podia conter-se; a suposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele dissimulava a culpa. -Olhe, eu bem digo,-continuou ele; tal qual o moço da Rua dos Inválidos. Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a Praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a pessoa não veio... -Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer. -Tal qual o moço da Rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma costureira da mulher, como se fosse casado. . . -Da Rua dos Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava no nome da rua. -Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Inválidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu também se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão. E vendo que o freguês o escutava com os olhos arregalados -Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um véu, cousa papa-fina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom. -Mas... como foi? murmurou Rubião. -Ora, como foi! Ele chegou como Vossa Senhoria, no meu tílburi, apeou-se e entrou numa casa de rótula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e ele tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da Rua da Harmonia. . . -Da Harmonia? repetiu Rubião. -Mau! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; mudemos de assunto; não digo mais nada. Rubião olhava atônito para o homem, que de fato se calou por dous ou três minutos, mas logo depois continuou -Também não há muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando, meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ela veio, veio, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas mágicas, a rótula abriu-se por si, e ela enfiou por ali dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe cobrinhos mais? O preço da tabela mal dá para comer; é precise fazer estes ganchos.
CAPÍTULO XC "NÃO, NÃO PODIA ser ela", refletiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto. Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo cocheiro do tílburi. Tentou esquecê-lo, arranjando papéis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que há muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da Rua da Harmonia fosse ela; mas o bom efeito era curto. Daí a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a própria Sofia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... A visão foi tal, em certa ocasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se ali estivesse a rótula da Rua da Harmonia. De imaginação, fez uma série de ações-bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sofia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado "Não, não podia ser ela." Vestiu o colete, e foi abotoá-lo diante de uma das janelas, que dava para os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outrora! Mas, desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropelou as tristes formigas, matando uma porção delas. Talvez alguma lhe pareceu "boa figura e bonita de corpo". Logo depois arrependeu-se do ato; e realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do colete. Sôôôô.. . fia, fia, fia, fia, fia, fia. . . Sôôôô. . . fia, fia, fia, fia, fia... Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensá-las. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não pode ser. Nem era capaz de aproximar as cousas, e concluir delasnem o faria agora que está a chegar ao último botão do colete, todo ouvidos, todo cigarra . Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulês, que vos pague a fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto Vous marchiez? J'en suis fort aise. Eh bien! mourez maintenant.
CAPÍTULO XCI Soou A CAMPAINHA de jantar; Rubião compôs o rosto, para que os seus habituados (tinha sempre quatro ou cinco) não percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, à espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente. Rubião teve aqui um impulso inexplicável,-dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio.
CAPÍTULO XCII DE NOITE, correu à Praia do Flamengo. Não pôde falar a Maria Be-nedita, que estava em cima, no quarto, com duas moças da vizinhança, amigas dela. Sofia veio recebê-lo à porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não descera. -Sente-se aqui, disse ela. Tomou conta dele; estava divina. As palavras saíam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Falou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados, dos espetáculos, da falta d'água, de uma multidão de cousas diversas vulgares ou não, mas que pas-sando pela boca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ela, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ágeis, que pareciam brincar com a agulha. -Sabe que estou formando uma comissão de senhoras? perguntou ela. -Não sabia; para quê? -Não leu a notícia daquela epidemia numa cidade das Alagoas? Contou-lhe haver ficado tão penalizada, que resolveu logo orga-nizar uma comissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do sétimo dia. E perguntou que lhe parecia. -Parece-me bem. Não há homens na comissão? -Há só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo. Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obri-gar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era também verdade que a comissão ia pôr em evidência a pessoa de Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a cumprimentava; mas, por intermédio de certa viúva, que brilhara entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquela obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Às vezes, à noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se que este fosse o assunto principal da conversação; mas, Sofia tornava de quando em quando ao presente amigo. Por que é que ele fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão comovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Daí em diante, ainda quando o silêncio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa. Veio uma visita de pêsames, -um homem, diretor de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebê-lo. Sofia pediu licença ao Rubião, por alguns segundos, ia ver Maria Benedita.
CAPÍTULO XCIII RUBIÃO, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incomodar ninguém Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha"Em todo o caso, pode crer..."-"Nem a administração de um banco cousa de brincadeira..." -"Positivamente..." O diretor falava pouco, seco e baixo. Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carretéis de linha, de retrós. Era tarde; ia-se embora. -Dondon, espera um bocado que eu vou também. -Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são? -São oito e meia, respondeu Rubião. -Jesus! é muito tarde. Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe por que não esperava, como a outra pedia. -Só espero D. Sofia, acudiu Dondon com respeito, mas o senhor sabe onde é que esta mora? Mora na Rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que daqui à Rua da Harmonia é um estirão.
CAPÍTULO XCIV SOFIA DESCEU LOGO, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; ele respondeu que nada, dor de cabeça. Dondon saiu, o diretor do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava o chapéu? Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e, parecendo que ele procurava outra cousa, perguntou se era a bengala. -Não, senhor, é o guarda-chuva. Creio que é este; é este. Adeus -Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéu, está úmido, não faça cerimônias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em ângulo. Voltando ao gabinete, deu com o sócio, que teimava em sair. Instou também, disse-lhe que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo. -A sua mão está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha; por que não espera? Água de melissa é muito bom. Vou buscar. Rubião deteve-a; não era preciso, conhecia aqueles achaques, curavam-se com sono. Palha quis mandar vir um tílburi; mas o outro acudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Catete acharia condução.
CAPÍTULO XCV "VOU AGARRÁ-LA ANTES de chegar ao Catete", disse Rubião subindo pela Rua do Príncipe. Calculou que a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um deles pareceulhe de mulher. Há de ser ela, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoadaRua da Harmonia, costureira, uma dama e todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de si, e andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher também andava depressa.
CAPÍTULO XCVI E o HOMEM empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranqüilamente. Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias,-uma em cheio, antes de descer a escada,-outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e na varanda, pendente do tecto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu, e saiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia , mas os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa do Palha. Em dez minutos, tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça, e um raio de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdém a venta esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa. Estava outro, quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si própria, e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano Palha.
CAPÍTULO XCVII QUANDO RUBIÃO chegou à esquina do Catete a costureira conversava com um homem, que a esperara, e que lhe deu logo depois o braço; viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Glória. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, enquanto Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rótula moço de bigodes, a senhora de bonito corpo, a Rua da Harmonia Rua da Harmonia; ela dissera Rua da Harmonia. Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve à janela, matutando, charuto aceso, sem acabar de explicar aquele negócio. Dondon era por força a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensou Rubião. "Amanhã vou lá, saio mais cedo, vou esperá-la na esquina, dou-lhe cem mil-réis, duzentos, quinhentos; ela há de confessar-me tudo." Quando cansou, olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro. . . Oh!; ela houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a mirá-la, a com por mil cenas lindas e namoradas,-a viver do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desabrochados, acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não era só uma constelação era também uma ordem honorífica. Daqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção nacional e privilegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente rara. -Tanto melhor! disse ele em voz alta. Era perto de duas horas quando saiu da janela; fechou-a e foi meter-se na cama, dormiu logo; acordou ao som da voz do criado espanhol, que lhe trazia um bilhete.
CAPÍTULO XCVIII RUBIÃO sentou-se na cama estremunhado, não reparou na letra de sobrescrito; abriu o bilhete, e leu Ficamos ontem muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não vai lá agora, porque acordou tarde, e tem de ir ao inspetor da alfândega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças de Maria Benedita e da Sua amiga e obrigada SOFIA. -Diga ao portador que espere. Daí a vinte minutos a resposta chegou à mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o próprio Rubião que lha entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões, recomendando-lhe que, quando precisasse algum dinheiro, viesse procurá-lo. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometeu tudo. -Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião. E ficou parado, enquanto o portador descia os pousos degraus. Indo este a meio do jardim, ouviu bradar -Espera! Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degraus; foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa,-se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de há pouso; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens, begônias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisíveis ao Rubião, e bradar-lhe -Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos... -Bem, disse finalmente Rubião lembranças às senhoras. Não se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá. Guardou a carta? -Está aqui, sim, senhor. -É melhor metê-la no bolso, mas olhe não machuque. -Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado acomodando a carta.
CAPÍTULO XCIX SAIU O MOLEQUE; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo. Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescrito... A letra era dela, tão-só dela; comparou-a com a do bilhete que recebera; era a mesma. O nome era o do diaboCarlos Maria. "Sim, foi isso, pensou ele ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a cair." E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo. Oh! o conteúdo! Que iria ali escrito dentro daquele papel homicida? Perversidade, luxúria, toda a linguagem do mal e da demência, resumidas em duas ou três linhas. Ergueu-a ante os olhos, para ver se podia ler alguma palavra; o papel era grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o portador, dando por falta da carta, soltaria a procurá-la, meteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro. Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado da consciência. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada, ninguém mais conheceria o texto, ao passo que ele teria acabado por uma vez com essa terrível fascinação que o fazia penar ao pé daquele abismo de opróbrios. . . Não sou eu que o digo, é ele; ele é que junta esse e outros nomes ruins, ele o que pára no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, cachimbo na boca, olhando para o Bósforo...Devia ser o Bósforo. - Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma frase ouvida no teatro, semanas antes; frase esquecida, que vinha agora exprimir a analogia moral do espetáculo e do espectador. Teve ímpetos de abri-la; era só um gesto, um ato, ninguém o via os quadros da parede estavam quietos, indiferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o Bósforo. Contudo, sentia escrúpulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, meteu-a outra vez no bolso Entre mandar a carta ao destinatário e entregá-la a Sofia, adotou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder ler a verdade nas feições da própria autora. "Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião e antes de lhe dar a carta, vejo bem na cara dela, se fica aterrada ou não. Talvez empalideça; então ameaço-a, falo-lhe da Rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto for preciso para estrangular o infame..."
CAPÍTULO C NENHUM DOS HABITUADOS da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou ainda uns dez minutos, chegou a mandar um criado ao portão, a ver se vinha alguém. Ninguém; teve de almoçar sozinho. Em geral, não podia suportar as refeições solitárias, estava tão afeito à linguagem dos amigos, às observações, às graças, não menos que aos respeitos e considerações, que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora, porém, era como um Saul que precisasse de algum Davi, para expelir o espírito maligno que se metera nele. Já queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorarera um benefício. E depois, a consciência vacilava,- ia da entrega da carta à recusa e à guarda indefinida. Rubião tinha medo de saber ora queria, ora não queria ler nada no rosto de Sofia. O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperança de descobrir que não havia nada. Davi apareceu enfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara de Vassouras, na véspera, à noite. Como o Davi da Escritura, trazia um jumento carregado de pães, um cântaro de vinho e uni cabrito. Deixara gravemente enfermo um deputado que estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubião, escrevendo às influências de Minas. Foi o que Ihe disse aos primeiros golos de café. -Candidato, eu? -Pois então quem? Camacho demonstrou que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas, não tinha? -Alguns. -Aqui os tem de grande relevância. Mantendo comigo o órgão dos princípios, tem recebido solidariamente os golpes que me dão, além dos sacrifícios que todos fazemos pelo lado pecuniário. Sobre isto, não me diga nada. Digo-lhe que hei de fazer o que puder. Demais, o senhor é a melhor solução da divergência. -Divergência? -Sim, o Dr. Hermenegildo, de Catas-Altas, e o Coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos... -Seguramente; mas teimam? -Creio que não teimarão, quando eu lhes mandar daqui confir-mação dos chefes, porque foi uma das cousas que me lançaram à cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para aquele caso imprevisto, não; mas que possuía a confiança dos chefes, os quais me aprovariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de fidelidade aos princípios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adotar o que lhes pro-ponho. Rubião, comovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da vitória, se eram precisas despesas já, ou carta de recomendação e pedido, e como é que se havia de ter notícia freqüente do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe cautela. Em política, disse ele, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a vitória ao adversário. Contudo, ainda que não saísse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome sufragado; e o precedente contava-se por um serviço. -Firmeza e paciência, concluiu. E logo em seguida -Eu próprio que sou, senão um exemplo de paciência e firmeza? A minha província está entregue a um grupo de bandidos; não há outro nome para a gente dos Pinheiros; e além disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repele e se me tomam o lugar. . . Uns biltres! Ah! meu caro Rubião, isto de política pode ser comparado à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; não falta nada, nem o discípulo que nega, nem o discípulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na cruz das idéias, pregado pelos cravos da inveja, da calúnia e da ingratidão. . . Esta frase, caída no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo- reteve-a de memória; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na ocasião da conversa, enquanto a repetia con-sigo para fixá-la, Rubião dizia que se animasse, que ele era homem para grandes campanhas. E não fugisse de caretas. -De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os há. Cá os espero! Que se acautelem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselhoem política, não se per doa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a vingança é um prazer, continuou sorrindo- há muita delícia. .. Enfim, conta dos os males e os bens da política, os bens ainda são superiores. Há ingratos, mas os ingratos demitem-se, prendem-se, perseguem-se Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anátemas brotavam-lhe como da boca de Isaías, as palmas do triunfo verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um princípios. Quando abria os braços, ferindo o ar, era como se desdobrasse um programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, parou diante de Rubião -Vamos lá, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerra mento da discussãoSr. Presidente... Vamos, diga comigoSr. Presidente... peço a V. Ex.a... Rubião interrompeu-o, erguendo-se; teve uma espécie de vertigem. Via-se na Câmara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calafrio. O passo era difícil. Contudo, atravessou a sala, subiu à mesa da presidência, prestou o juramento de estilo... Talvez a voz lhe fraqueasse na ocasião...
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CAPÍTULO LXXXI ANTES DE CUIDAR da noiva, cuidou do casamento. Naquele dia e nos outros, compôs de cabeça as pompas matrimoniais, os coches,-se ainda os houvesse antigos e ricos, quais ele via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como ele gostava de ir esperar o Imperador nos dias de grande gala, à porta do paço da cidade, para ver chegar o préstito imperial, especialmente o coche de Sua Majestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos. Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe às bodas, se toda a sociedade não estivesse já nivelada pelo vulgar coupé. Mas enfim, iria de coupé; imaginava-o forrado magnificamente, de quê? De uma fazenda que não fosse comum, que ele mesmo não dis-tinguia, por ora; mas que daria ao veículo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas um ouro nunca visto. Con-vidados de primeira ordem, generais, diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas sumidades do comércio, e as damas, as grandes dunas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, ele no alto da escada de um palácio, com o olhar perdido por aquele tapete abaixo, - elas atravessando o saguão, subindo os degraus com os seus sapatinhos de cotim, breves e leves,-a princípio, poucas,-depois mais, e ainda mais. Carruagens após carruagens. . . Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e uma singular dama. . . "Caro amigo, aqui estamos", dir-lhe-ia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa"Se-nhor Rubião, a festa é esplêndida. .." De repente, o internúncio. . . Sim, esquecera-se que o internúncio devia casá-los; lá estaria ele com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em conversação com o ministro da Rússia. Os lustres de cristal e ouro alumiando os mais belos colos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orquestra dando sinal para uma valsa. Então os braços negros, em angulo, iam buscar os braços nus, enluvados até o cotovelo, e os pares saíam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia esplêndida. Cristais da Boêmia, louça da Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciais do Rubião na gola.
CAPÍTULO LXXXII ESSES SONHOS iam e vinham. Que misterioso Próspero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime? "Vai, Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este jovem casal alguns feitiços da minha feitiçaria ." As palavras seriam as mesmas da comé-dia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquela era a própria cabeça do nosso amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. Mais rica era. Não esqueçamos que o Próspero de Shakespeare era um duque de Milão; e eis aí, talvez, por que se meteu na ilha do nosso amigo. Em verdade, as noivas que apareciam ao lado do Rubião, naqueles sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e fáceis da nossa nobiliarquia. Eis aqui a explicaçãopoucas semanas antes, Rubião apanhou um almanaque de Laemmert, e en-trando a folheá-lo, deu com o capítulo dos titulares. Se ele sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanaque, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por ali abaixo, desde os marqueses até os barões, voltava atrás, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de cor. As vezes, pegava da pena e de uma olha de papel, escolhia um título moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o próprio dono e assinasse alguma cousa Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Marquês de Barbacena Ia assim, até o fim da lauda, variando a letra, ora grossa, ora miúda, caída para trás, em pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nela, e comparava as assinaturas; deixava o papel e perdia-se no ar. Daí a jerarquia das noivas. O pior é que todas traziam a cara de Sofia;-podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma vizinha, ou com a moça que ele cumprimentara, à tarde na rua, podiam começar muito magras ou gordas;-mas não tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bela Sofia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sair da casa dele tendo-lhe ouvido a ela uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de ventura, posto que ele repelisse logo a idéia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as maneiras, tornava ele definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez, era o próprio Palha que o acordava daqueles sonhos conjugais. -Tem onde ir hoje à noite? -Não. -Pegue lá uma entrada para o Teatro Lírico, camarote n° 8, primeira ordem à esquerda. Rubião chegava mais cedo, ia esperar por eles, e dava o braço a Sofia. Se ela estava de bom humor, a noite era das melhores mundo. Se não, era um martírio, para repetir as próprias palavras dele, ao cão, um dia -Vim ontem de um martírio, meu pobre amigo. -Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba. -Sim, meu pobre amigo, acudiu ele pegando-lhe nas patas dianteiras e colocando-as sobre os joelhos. Você tem razão; precisa uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande amigo, eu também fui amigo dele, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,- ao menos, o de honra, aos noivos;-e seria por copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de propósito... Grande Quincas Borba! E o espírito de Rubião pairava sobre o abismo.
CAPÍTULO LXXXIII UM DIA, como houvesse saído mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a primeira hora, caminhou para o armazém. Desde uma semana que não ia à Praia do Flamengo, por haver Sofia entrado em um dos seus períodos de sequidão. Achou a Palha de luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notícia chegara na antevéspera, à tarde. -A mãe daquela mocinha? -Justo. Palha falou da defunta com muitos encarecimentos; depois contou a dor de Maria Benedita; estava que metia pena. Perguntou-lhe por que é que não ia ao Flamengo, logo à noite, para ajudá-los a distraí-la? Rubião prometeu ir. -Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor ali está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, ressarciu o tempo perdido com rapidez extraordinária. Sofia é a mestra. E dona de casa? Isso, meu amigo, não sei se em tal idade se achará pessoa tão completa. Já agora fica conosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem também o padrinho, em S. João d'EI-Rei. A defunta fazialhe muitos elogios; não creio que ele a mande buscar, mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não há de ser pelo que o padrinho lhe quiser deixar em testamento que nos desfaremos dela. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do Rubião. Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escritório, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazém. Perguntou que traziam. -São uns morins ingleses. -Morins ingleses, repetiu Rubião, com indiferença. -A propósito, sabe que a Casa Morais e Cunha paga a todos os credores, integralmente? Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se eles eram credores dela; ouviu a notícia respondeu que estimava muito, e dispôs-se a ir embora. Mas o sócio reteve-o ainda alguns instantes. Esta-va alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguém. Voltou a tratar de Maria Benedita. Tinha intenção de casá-la bem; nem ela era moça de dar lérias a pelintras, nem se deixava ir por fantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa séria. -Sim, senhor, ia dizendo Rubião. -Olhe, murmurou de repente o Sócio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que você é que casa com ela. -Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para atenuar o efeito da recusa. Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar... -Ninguém lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sofia nunca lhe contou este meu palpite? -Nunca. -É esquisito, disse-me que lhe falara uma vez, ou duas, não me lembro bem. -Pode ser, sou muito distraído. Que queriam casar-me com a moça? -Não, que eu tinha um palpite. Mas, deixemos isto. Demos tempo ao tempo. -Adeus. -Adeus, vá cedo.
CAPÍTULO LXXXIV COM QUE ENTÃO, Sofia queria casá-lo? saiu pensando o Rubiãoera naturalmente o processo mais expedito para descartar-se dele. Casá-lo, fazê-lo seu primo. Rubião palmilhou muita rua, antes que chegasse a esta outra hipótese-talvez Sofia não se houvesse esquecido, mas mentisse de propósito ao marido para não dar andamento ao projeto. Neste caso o sentimento era outro. Esta explicação pareceu-lhe lógicaa alma voltou à serenidade anterior.
CAPÍTULO LXXXV MAS NÃO HÁ SERENIDADE moral que corte uma polegada sequer às abas do tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer mais curto. Ao contrário, a ânsia de ir ao Flamengo, à noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir à Rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réu no júri. Não havia divertimento algum público, festa nem sermão. Nada. Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas, à toa, lendo as tabuletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropelo de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, por quê? Não achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrair, e que o distraía deveras mas havia aqui horas de um tédio mortal. Felizmente, há um deus para os enojados. Acudiu à memória de Rubião que o Freitas,-aquele Freitas tão alegre,- estava gravemente enfermo; Rubião chamou um tílburi e foi visitá-lo à Praia Formosa, onde morava. Gastou ali perto de duas horas, conversando com o doente; este adormeceu, ele despediu-se da mãe,-um caco de velha,-e à porta antes de sair -A senhora há de ter tido seus apertos de dinheiro, disse Rubião e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhosNão se envergonhe; necessidade aflige, mas não envergonha. Eu o que queria era que a senhora aceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudira despesa, pagará um dia, se puder... Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil-réis, fez um bolo de todas elas, e deixou-lho na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; só ao rodar do tílburi, é que correu à janela, mas já não podia ver o benfeitor.
CAPÍTULO LXXXVI TUDO AQUILO SAIU tão espontaneamente ao Rubião, que ele só teve tempo de refletir, depois que o tílburi começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Rubião sentiu toda a vantagem de não estar inválido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vê-la. -Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguês que tinha. -Acho bonito. -Nunca veio aqui? -Creio que vim, há muitos anos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de Minas. . . Pare, moço. O cocheiro fez parar o cavaloRubião desceu, e disse-lhe que fosse andando devagar. Em verdade, era curioso. Aquelas grandes braçadas de mato, bro-tando do lodo, e postas ali ao pé da cara do Rubião, davam-lhe vontade de ir ter com elas. Tão perto da rua! Rubião nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim sim, - dizia ele consigo,-fosse o mar todo uma cousa daquele feitio, alastrado de terras e verduras, e valia a pena navegar. Para lá daquilo ficava a Praia dos Lázaros e a de S. Cristóvão. Uma pernada apenas. -Praia Formosa, murmurou ele; bem posto nome. Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Saco do Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. Todos eles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pequerrucho de três anos; agarrava-se-lhe à perna e ia-a estendendo até nivelá-la com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino. Rubião deteve-se alguns minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto de atenção, redobrou o esforço no brincoperdeu a naturalidade. Os outros meninos mais idosos detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do cemitério dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas, o cais encardido e a vida lá dentro E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nele transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!
CAPÍTULO LXXXVII RUBIÃO chegou ao fim da Rua da Saúde. Ia à toa com os olhos espraiados e desatentos. Rente com ele, passou uma mulher, não bonita, nem singela sem elegância, antes pobre que remediada, mas fresca de feições, contaria vinte e cinco anos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião. -Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço. Rubião inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo. -Muito obrigada, desculpe, disse ela sorrindo- e cumprimentou-o. Rubião tirou o chapéu, sorriu também. A visão da família apoderou-se dele outra vez.-"Case-se e diga que eu o engano!" Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em várias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, música séria, regular e clássica. Chegou a pensar na filha do major e que apenas sabia umas velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra do pecado, tangida pelos dedos de Sofia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saúde, modos tão bonitos, criancinha pela mão...
CAPÍTULO LXXXVIII A VISTA DO TÍLBURI fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa. -Pobre Freitas! suspirou. Logo depois, pensou também no dinheiro que deixara à mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a idéia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns segundos no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo e para esquecê-la de todo, exclamou ainda em voz alta -Boa velha! pobre velha!
CAPÍTULO LXXXIX COMO A IDÉIA tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tílburi, entrou e sentou-se, falando ao cocheiro, para fugir a si mesmo. -Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outro; bairros. Gosto disto. Hei de vir mais vezes. O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mau sentido, mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar d princípio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação. -Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse ele. Há de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro. -Por quê? aventurou Rubião. O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,-não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o freguês ia demonstrando, ele ia fi-cando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão. -Já sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira por que olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta. . . Rubião, lisonjeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo: -Que moça? -Que lhe dizia eu? redargüiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não há muitos dias trouxe um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, -já se sabe, negócio de rabo de saia. -Mas eu... interrompeu Rubião. Mal podia conter-se; a suposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele dissimulava a culpa. -Olhe, eu bem digo,-continuou ele; tal qual o moço da Rua dos Inválidos. Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a Praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a pessoa não veio... -Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer. -Tal qual o moço da Rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma costureira da mulher, como se fosse casado. . . -Da Rua dos Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava no nome da rua. -Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Inválidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu também se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão. E vendo que o freguês o escutava com os olhos arregalados -Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um véu, cousa papa-fina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom. -Mas... como foi? murmurou Rubião. -Ora, como foi! Ele chegou como Vossa Senhoria, no meu tílburi, apeou-se e entrou numa casa de rótula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e ele tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da Rua da Harmonia. . . -Da Harmonia? repetiu Rubião. -Mau! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; mudemos de assunto; não digo mais nada. Rubião olhava atônito para o homem, que de fato se calou por dous ou três minutos, mas logo depois continuou -Também não há muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando, meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ela veio, veio, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas mágicas, a rótula abriu-se por si, e ela enfiou por ali dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe cobrinhos mais? O preço da tabela mal dá para comer; é precise fazer estes ganchos.
CAPÍTULO XC "NÃO, NÃO PODIA ser ela", refletiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto. Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo cocheiro do tílburi. Tentou esquecê-lo, arranjando papéis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que há muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da Rua da Harmonia fosse ela; mas o bom efeito era curto. Daí a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a própria Sofia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... A visão foi tal, em certa ocasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se ali estivesse a rótula da Rua da Harmonia. De imaginação, fez uma série de ações-bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sofia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado "Não, não podia ser ela." Vestiu o colete, e foi abotoá-lo diante de uma das janelas, que dava para os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outrora! Mas, desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropelou as tristes formigas, matando uma porção delas. Talvez alguma lhe pareceu "boa figura e bonita de corpo". Logo depois arrependeu-se do ato; e realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do colete. Sôôôô.. . fia, fia, fia, fia, fia, fia. . . Sôôôô. . . fia, fia, fia, fia, fia... Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensá-las. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não pode ser. Nem era capaz de aproximar as cousas, e concluir delasnem o faria agora que está a chegar ao último botão do colete, todo ouvidos, todo cigarra . Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulês, que vos pague a fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto Vous marchiez? J'en suis fort aise. Eh bien! mourez maintenant.
CAPÍTULO XCI Soou A CAMPAINHA de jantar; Rubião compôs o rosto, para que os seus habituados (tinha sempre quatro ou cinco) não percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, à espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente. Rubião teve aqui um impulso inexplicável,-dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio.
CAPÍTULO XCII DE NOITE, correu à Praia do Flamengo. Não pôde falar a Maria Be-nedita, que estava em cima, no quarto, com duas moças da vizinhança, amigas dela. Sofia veio recebê-lo à porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não descera. -Sente-se aqui, disse ela. Tomou conta dele; estava divina. As palavras saíam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Falou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados, dos espetáculos, da falta d'água, de uma multidão de cousas diversas vulgares ou não, mas que pas-sando pela boca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ela, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ágeis, que pareciam brincar com a agulha. -Sabe que estou formando uma comissão de senhoras? perguntou ela. -Não sabia; para quê? -Não leu a notícia daquela epidemia numa cidade das Alagoas? Contou-lhe haver ficado tão penalizada, que resolveu logo orga-nizar uma comissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do sétimo dia. E perguntou que lhe parecia. -Parece-me bem. Não há homens na comissão? -Há só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo. Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obri-gar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era também verdade que a comissão ia pôr em evidência a pessoa de Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a cumprimentava; mas, por intermédio de certa viúva, que brilhara entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquela obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Às vezes, à noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se que este fosse o assunto principal da conversação; mas, Sofia tornava de quando em quando ao presente amigo. Por que é que ele fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão comovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Daí em diante, ainda quando o silêncio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa. Veio uma visita de pêsames, -um homem, diretor de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebê-lo. Sofia pediu licença ao Rubião, por alguns segundos, ia ver Maria Benedita.
CAPÍTULO XCIII RUBIÃO, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incomodar ninguém Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha"Em todo o caso, pode crer..."-"Nem a administração de um banco cousa de brincadeira..." -"Positivamente..." O diretor falava pouco, seco e baixo. Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carretéis de linha, de retrós. Era tarde; ia-se embora. -Dondon, espera um bocado que eu vou também. -Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são? -São oito e meia, respondeu Rubião. -Jesus! é muito tarde. Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe por que não esperava, como a outra pedia. -Só espero D. Sofia, acudiu Dondon com respeito, mas o senhor sabe onde é que esta mora? Mora na Rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que daqui à Rua da Harmonia é um estirão.
CAPÍTULO XCIV SOFIA DESCEU LOGO, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; ele respondeu que nada, dor de cabeça. Dondon saiu, o diretor do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava o chapéu? Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e, parecendo que ele procurava outra cousa, perguntou se era a bengala. -Não, senhor, é o guarda-chuva. Creio que é este; é este. Adeus -Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéu, está úmido, não faça cerimônias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em ângulo. Voltando ao gabinete, deu com o sócio, que teimava em sair. Instou também, disse-lhe que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo. -A sua mão está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha; por que não espera? Água de melissa é muito bom. Vou buscar. Rubião deteve-a; não era preciso, conhecia aqueles achaques, curavam-se com sono. Palha quis mandar vir um tílburi; mas o outro acudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Catete acharia condução.
CAPÍTULO XCV "VOU AGARRÁ-LA ANTES de chegar ao Catete", disse Rubião subindo pela Rua do Príncipe. Calculou que a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um deles pareceulhe de mulher. Há de ser ela, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoadaRua da Harmonia, costureira, uma dama e todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de si, e andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher também andava depressa.
CAPÍTULO XCVI E o HOMEM empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranqüilamente. Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias,-uma em cheio, antes de descer a escada,-outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e na varanda, pendente do tecto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu, e saiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia , mas os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa do Palha. Em dez minutos, tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça, e um raio de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdém a venta esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa. Estava outro, quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si própria, e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano Palha.
CAPÍTULO XCVII QUANDO RUBIÃO chegou à esquina do Catete a costureira conversava com um homem, que a esperara, e que lhe deu logo depois o braço; viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Glória. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, enquanto Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rótula moço de bigodes, a senhora de bonito corpo, a Rua da Harmonia Rua da Harmonia; ela dissera Rua da Harmonia. Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve à janela, matutando, charuto aceso, sem acabar de explicar aquele negócio. Dondon era por força a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensou Rubião. "Amanhã vou lá, saio mais cedo, vou esperá-la na esquina, dou-lhe cem mil-réis, duzentos, quinhentos; ela há de confessar-me tudo." Quando cansou, olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro. . . Oh!; ela houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a mirá-la, a com por mil cenas lindas e namoradas,-a viver do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desabrochados, acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não era só uma constelação era também uma ordem honorífica. Daqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção nacional e privilegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente rara. -Tanto melhor! disse ele em voz alta. Era perto de duas horas quando saiu da janela; fechou-a e foi meter-se na cama, dormiu logo; acordou ao som da voz do criado espanhol, que lhe trazia um bilhete.
CAPÍTULO XCVIII RUBIÃO sentou-se na cama estremunhado, não reparou na letra de sobrescrito; abriu o bilhete, e leu Ficamos ontem muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não vai lá agora, porque acordou tarde, e tem de ir ao inspetor da alfândega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças de Maria Benedita e da Sua amiga e obrigada SOFIA. -Diga ao portador que espere. Daí a vinte minutos a resposta chegou à mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o próprio Rubião que lha entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões, recomendando-lhe que, quando precisasse algum dinheiro, viesse procurá-lo. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometeu tudo. -Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião. E ficou parado, enquanto o portador descia os pousos degraus. Indo este a meio do jardim, ouviu bradar -Espera! Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degraus; foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa,-se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de há pouso; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens, begônias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisíveis ao Rubião, e bradar-lhe -Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos... -Bem, disse finalmente Rubião lembranças às senhoras. Não se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá. Guardou a carta? -Está aqui, sim, senhor. -É melhor metê-la no bolso, mas olhe não machuque. -Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado acomodando a carta.
CAPÍTULO XCIX SAIU O MOLEQUE; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo. Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescrito... A letra era dela, tão-só dela; comparou-a com a do bilhete que recebera; era a mesma. O nome era o do diaboCarlos Maria. "Sim, foi isso, pensou ele ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a cair." E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo. Oh! o conteúdo! Que iria ali escrito dentro daquele papel homicida? Perversidade, luxúria, toda a linguagem do mal e da demência, resumidas em duas ou três linhas. Ergueu-a ante os olhos, para ver se podia ler alguma palavra; o papel era grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o portador, dando por falta da carta, soltaria a procurá-la, meteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro. Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado da consciência. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada, ninguém mais conheceria o texto, ao passo que ele teria acabado por uma vez com essa terrível fascinação que o fazia penar ao pé daquele abismo de opróbrios. . . Não sou eu que o digo, é ele; ele é que junta esse e outros nomes ruins, ele o que pára no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, cachimbo na boca, olhando para o Bósforo...Devia ser o Bósforo. - Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma frase ouvida no teatro, semanas antes; frase esquecida, que vinha agora exprimir a analogia moral do espetáculo e do espectador. Teve ímpetos de abri-la; era só um gesto, um ato, ninguém o via os quadros da parede estavam quietos, indiferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o Bósforo. Contudo, sentia escrúpulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, meteu-a outra vez no bolso Entre mandar a carta ao destinatário e entregá-la a Sofia, adotou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder ler a verdade nas feições da própria autora. "Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião e antes de lhe dar a carta, vejo bem na cara dela, se fica aterrada ou não. Talvez empalideça; então ameaço-a, falo-lhe da Rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto for preciso para estrangular o infame..."
CAPÍTULO C NENHUM DOS HABITUADOS da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou ainda uns dez minutos, chegou a mandar um criado ao portão, a ver se vinha alguém. Ninguém; teve de almoçar sozinho. Em geral, não podia suportar as refeições solitárias, estava tão afeito à linguagem dos amigos, às observações, às graças, não menos que aos respeitos e considerações, que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora, porém, era como um Saul que precisasse de algum Davi, para expelir o espírito maligno que se metera nele. Já queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorarera um benefício. E depois, a consciência vacilava,- ia da entrega da carta à recusa e à guarda indefinida. Rubião tinha medo de saber ora queria, ora não queria ler nada no rosto de Sofia. O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperança de descobrir que não havia nada. Davi apareceu enfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara de Vassouras, na véspera, à noite. Como o Davi da Escritura, trazia um jumento carregado de pães, um cântaro de vinho e uni cabrito. Deixara gravemente enfermo um deputado que estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubião, escrevendo às influências de Minas. Foi o que Ihe disse aos primeiros golos de café. -Candidato, eu? -Pois então quem? Camacho demonstrou que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas, não tinha? -Alguns. -Aqui os tem de grande relevância. Mantendo comigo o órgão dos princípios, tem recebido solidariamente os golpes que me dão, além dos sacrifícios que todos fazemos pelo lado pecuniário. Sobre isto, não me diga nada. Digo-lhe que hei de fazer o que puder. Demais, o senhor é a melhor solução da divergência. -Divergência? -Sim, o Dr. Hermenegildo, de Catas-Altas, e o Coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos... -Seguramente; mas teimam? -Creio que não teimarão, quando eu lhes mandar daqui confir-mação dos chefes, porque foi uma das cousas que me lançaram à cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para aquele caso imprevisto, não; mas que possuía a confiança dos chefes, os quais me aprovariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de fidelidade aos princípios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adotar o que lhes pro-ponho. Rubião, comovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da vitória, se eram precisas despesas já, ou carta de recomendação e pedido, e como é que se havia de ter notícia freqüente do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe cautela. Em política, disse ele, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a vitória ao adversário. Contudo, ainda que não saísse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome sufragado; e o precedente contava-se por um serviço. -Firmeza e paciência, concluiu. E logo em seguida -Eu próprio que sou, senão um exemplo de paciência e firmeza? A minha província está entregue a um grupo de bandidos; não há outro nome para a gente dos Pinheiros; e além disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repele e se me tomam o lugar. . . Uns biltres! Ah! meu caro Rubião, isto de política pode ser comparado à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; não falta nada, nem o discípulo que nega, nem o discípulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na cruz das idéias, pregado pelos cravos da inveja, da calúnia e da ingratidão. . . Esta frase, caída no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo- reteve-a de memória; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na ocasião da conversa, enquanto a repetia con-sigo para fixá-la, Rubião dizia que se animasse, que ele era homem para grandes campanhas. E não fugisse de caretas. -De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os há. Cá os espero! Que se acautelem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselhoem política, não se per doa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a vingança é um prazer, continuou sorrindo- há muita delícia. .. Enfim, conta dos os males e os bens da política, os bens ainda são superiores. Há ingratos, mas os ingratos demitem-se, prendem-se, perseguem-se Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anátemas brotavam-lhe como da boca de Isaías, as palmas do triunfo verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um princípios. Quando abria os braços, ferindo o ar, era como se desdobrasse um programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, parou diante de Rubião -Vamos lá, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerra mento da discussãoSr. Presidente... Vamos, diga comigoSr. Presidente... peço a V. Ex.a... Rubião interrompeu-o, erguendo-se; teve uma espécie de vertigem. Via-se na Câmara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calafrio. O passo era difícil. Contudo, atravessou a sala, subiu à mesa da presidência, prestou o juramento de estilo... Talvez a voz lhe fraqueasse na ocasião...
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